segunda-feira, 16 de novembro de 2009

INDÚSTRIA DA BELEZA



INDÚSTRIA DA BELEZA


Todos os dias, mas todos os dias mesmo, me apanho falando sozinho. Não estou deprimido e muito menos triste. Simplesmente me isolo ao perceber-me incapaz de entender as pessoas.
Não que elas sejam inaceitáveis, mas seguem uma escala de valores que eu não consigo compreender. Dão muito mais valor ao consumo do que ao ser humano correto e cordato, às belezas que não custam nada. Se apegam às aparências artificiais, moldadas por acessórios perfeitamente descartáveis. Miram-se no exemplo da propaganda incisiva da TV, do cinema e da Internet e se esquecem que a verdadeira beleza está na simplicidade, no comportamento, no sorriso sincero, na suavidade da alma.
Assim resta-me falar com coisas, com o que percebo estar à minha volta. Passo horas em intermináveis monólogos, conversando com personagens de livros, metendo-me nas obras que se fora um personagem.
Hoje todos querem ser lindos, como certas celebridades plastificadas, siliconizadas e maquiadas da cabeça aos pés. Será que isso tem alguma valia para a felicidade? Não sei. Mas não é o que vejo nos noticiários diários que leio sem querer.
A partir do momento em que a indústria da beleza criou estereótipos conforme sua ganância por lucros cada vez maiores, as pessoas, homens ou mulheres, deixaram de lado a autenticidade e a tão alcançável felicidade para seguirem os ditames impostos pelo capitalismo da beleza. É uma pena! Tantas mulheres e homens que poderiam ser bonitos se fossem mais naturais, se estragam com imagens construídas, passageiras, muitas vezes alcançadas a um preço muito alto, tanto financeiro quanto moral, quando algo sai errado.

Eu, que não sou nenhum jovem, ainda me lembro do tempo das pessoas que assumiam sua aparência e não se consumiam no desespero de alcançar equiparações a astros e estrelas. Mas isso faz um pouquinho de tempo e creio que a indústria ganhou mais essa luta, assim como a indústria do tabaco, que guerreou por mais de sessenta anos com a medicina, ganhando quase todas as batalhas, até que a vitória, mesmo que parcial, mas muito satisfatória, acabou prevalecendo para o lado sensato da ciência.
Resumindo: continuo falando sozinho, inventando músicas, falando com besouros, sapos e lagartixas e até mesmo com algumas aranhas que encontro de vez em quando. Só não falo com baratas porque morro de medo delas e dificilmente as encontro no local onde moro.
Que não sou bonito, todos já viram. Mas a minha felicidade não seria maior se o fosse. Falo isso porque vejo pessoas lindas, bem sucedidas em tudo, matando-se com drogas, álcool, estresse e até mesmo por suicídio.

Cairbar Garcia Rodrigues, 28/10/2008
http://www.textolivre.com.br/livre/10908-a-industria-da-beleza-prosa

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