Historicamente, as recomendações de exercício físico para gestantes variaram de acordo com os contextos sócio culturais vigentes, inclusive existindo períodos em que havia contra-indicações para a atividade física. No início do século XX começaram a ser desenvolvidos os programas de assistência pré-natal com o intuito de romper o ciclo vicioso medo-tensão-dor, incluindo a atividade física, porém sem um embasamento científico.
As questões éticas quanto a pesquisas em humanos dificultaram a padronização da prescrição do exercício em gestantes até os dias de hoje. Pesquisas científicas desenvolvidas em animais demonstraram a diminuição do fluxo sanguíneo placentário e o aumento das temperaturas materna e fetal de acordo com a intensidade e a duração do exercício físico. A elevação excessiva da temperatura materna e fetal está relacionada com a indução de defeitos no tubo neural nestes estudos.
A atividade física na gestação é recomendada na total ausência de qualquer anormalidade, mediante avaliação médica especializada. As contra-indicações absolutas são o sangramento uterino de qualquer causa, a placentação
baixa, o trabalho de parto pré-termo, o retardo de crescimento
intra-uterino, os sinais de insuficiência placentária,a roptura prematura de membranas e a incompetência istmocervical.
Durante uma gestação normal, quem já praticava exercícios pode continuar a fazê-lo, adequando a prescriçãoà gestação.
Os objetivos da prática de atividade física em gestantes são a manutenção da aptidão física e da saúde, a diminuição de sintomas gravídicos, o melhor controle ponderal, a diminuição da tensão no parto, e uma melhor recuperação no pós-parto
Outros benefícios da atividade física na gestação são oauxílio no retorno venoso prevenindo o aparecimento de varizes de membros inferiores e a melhora nas condições de irrigação da placenta.Como em qualquer outro grupo de indivíduos ao qual se vai recomendar atividade física regular, a prescrição de exercícios para mulheres deve considerar condicionamento cardiorrespiratório, endurance e força musculares, composição corporal e flexibilidade.
Uma adequada prescrição de exercícios para mulheres deve ser capaz de reduzir os efeitos deletérios do sedentarismo.
Para assegurar a melhor relação risco/benefício a prática regular de exercícios deve obedecer a determinados fundamentos.
Modalidade, duração, freqüência, intensidade e modo de progressão são os principais parâmetros a serem observados. A clássica recomendação de realizar exercícios aeróbicos durante 30 minutos, três vezes por semana, em intensidade
moderada tem sido debatida intensamente nos últimos
anos.
O “Posicionamento Oficial da SBME: Atividade Física e Saúde” enfatiza que “existe uma forte relação dose-resposta entre o nível de aptidão física e seu efeito protetor,com o risco de adquirir doença diminuindo à medida que a atividade física aumenta”.
Resultados expressivos podem ser atingidos tanto através de atividades programadas (por exemplo: caminhar, nadar, pedalar, hidroginástica) como também através de atividades do cotidiano e de lazer, como subir escadas, cuidar de
afazeres domésticos, cuidar do jardim, dançar, etc.
Um programa ideal deve ser realizado na maior parte dos dias da semana, com a duração das sessões variando entre 30 e 90 minutos, de forma contínua ou não. É importante fazer com que o hábito de se exercitar se transforme em algo tão natural como, por exemplo, cuidar da própria higiene.
Exercícios de alongamento e de mobilidade articular, além da atividade principal em menor intensidade, compõem uma adequada fase de aquecimento que é importante
por reduzir a incidência de lesões e aumentar o fluxo sanguíneo para a musculatura esquelética.
Sempre se recomenda a realização de exercícios de alongamento acompanhando as sessões de exercícios aeróbicos e de força.
Na gestação, devem-se preferir os exercícios de menor impacto devido às alterações articulares próprias desta fase.
A intensidade adequada deve ser igual ou inferior a 50% do VO2máx ou da FC de reserva. A duração em atividades aeróbicas deve ser de 30 minutos ou mais e a freqüência mínima de três vezes por semana, levando-se em consideração
o grau de aptidão prévio.Exercícios de flexibilidade são particularmente úteis na
gestação para equilibrar a musculatura dorso-lombar, abdominal e de assoalho pélvico, que estão em geral contraídos pela postura gravídica.
Exercícios respiratórios também são importantes por favorecerem a conscientização corporal e promoverem as trocas gasosas. Estes são úteis ainda para o relaxamento e para o auxílio no trabalho de parto.
A segurança para a mãe e o feto deve ser a principal preocupação, especialmente nas questões referentes à adequada hidratação e a realização de exercícios em condições favoráveis de temperatura.
Os exercícios no período pós-parto, não existindo complicações, iniciam-se 30 dias após o parto normal e 45 dias após a cesariana, aplicando-se os mesmos princípios utilizados para a prescrição de exercícios na população em geral.
O retorno às condições pré-gestacionais, especialmente em atletas, dependerá do grau de aptidão que a mulher mantiver durante a gestação.
Possíveis influências do exercício na fase de amamentação foram avaliadas em um ensaio randomizado que analisou os efeitos de atividades aeróbias realizadas a 60-70% da FC de reserva, durante 45 minutos, cinco vezes por semana, não se observando nenhuma diferença significativa no volume e na composição do leite materno após 12 semanas.
A única diferença significativa observada neste estudo foi um aumento de 25% no VO2máx do grupo ativo.
Conclui-se, portanto, que o exercício físico é seguro para o lactente e eficaz para a mãe no período pós-parto.
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